A tendência
à posse é inata no ser humano.
Basta ver os meninos, nos
supermercados e em todas as partes,
desde a mais tenra idade; e basta
ver os aborígines, seres que ainda
não transpuseram a infância da humanidade.
O fato é relevante, merece
toda a atenção em casa e na escola,
tem imensa importância para
a felicidade de cada um de nós.
Contemple cada um o quadro da
própria vida e pergunte a si mesmo
o seguinte: "Em que medida minha
alegria de viver tem sido influenciada
pelo que eu já tenho? E em que
medida essa alegria está contida, esperando
o dia em que eu tenha o
que quero ter?" Vale a pena fazer a
experiência. Em algum lugar entre
esses dois pólos cada um há de encontrar
o seu ponto de equilíbrio,
de maior bem-estar, de mais paz interior
e felicidade pessoal.
Aprender a querer é assimilar uma
das lições da verdadeira Sabedoria.
O menino que hoje esperneia no supermercado,
indiferente a tudo quanto
já possui, inconsciente da própria
ingratidão, depende em tudo da mão
amorosa e sábia que o conduza pela
estrada do saber querer. Um dia, como
jovem, vai querer conquistar o coração
de alguém, alguns diplomas,
muito dinheiro, talvez o poder e o
prestígio, tantas coisas mais...
Depois, quem sabe?, ocupará
na vida o posto reservado aos
profissionais ditos realizados.
Dele se dirá que "venceu na vida".
Mas o que é mesmo vencer na
vida? É comum que os tais "vencedores
na vida" sejam a imagem
acabada dos insaciáveis, daqueles
para quem vale o velho e forte
adágio: "A boca do ambicioso só
se enche com terra de sepultura".
No topo dessa escalada, pairando
acima da maioria, cheios de
posses e cheios de glórias, muitos
se sentem vazios. Por quê? Talvez
tenham avultado a vida profissional,
relegando tudo mais a segundo
plano. No auge das conquistas,
ao invés da felicidade, a insatisfação;
ecoa do mais íntimo de seu ser
um grito de frustração, na voz do
de que o tempo que se dedicou a
mil posses não foi tão bem empregado
como um dia se supôs. As
muitas riquezas do mundo não foram
capazes de esconder a pobreza
do mundo interior, por absoluta
falta de realização espiritual. Pensou-
se, talvez, que bastava rezar, ir
a cultos religiosos, fazer e cumprir
promessas... Mas, na verdade, nenhuma
Sabedoria.
Outra realidade vive quem
aprende a querer, quem sabe o que
quer, por que e para que quer, sabendo
como administrar com inteligência
sua inata tendência à posse,
e como manter perene a gratidão e a
felicidade que um dia experimentou
no momento de conquistar cada
coisa. Por essa estrada, pode-se
chegar à condição de idoso sem repetir
a melancólica história daqueles
que, amargurados dentro de palácios
ou de carros importados, sentem
que a vida se foi com o tempo, e
que essa mesma vida agora se trunca
ante a natural decadência física.
Sem outras perspectivas, confessam-
se insatisfeitos. Com tantos diplomas
e experiências, não aprenderam
outra técnica de viver que não
fosse a devotada às satisfações materiais,
aos prazeres circunstanciais.
Mas nossa história termina
bem. O menino do supermercado
contém o choro, toma na sua a mão
paterna que se lhe estende e que,
num gesto ao mesmo tempo enérgico
e doce, firme e amoroso, o conduz
com Sabedoria pela difícil estrada
do saber querer.
Paulo Goiás é docente da
Fundação Logosófica, em Goiânia
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